Esquerda ano zero

"Não precisas de um homem do tempo para saber para que lado sopra o vento" (Bob Dylan)
Maurício Figueiredo em 20 de agosto de 2015 - 15:38 em Aprovação Automática
  
  

Esquerda Ano Zero é o título de um dos filmes de Goddard. O Brasil da atualidade parece assistir um fenômeno que antes parecia escondido debaixo do tapete. Dos anos 30 até recentemente, a chamada direita não era vista como um acontecimento de massas. Pelo contrário, mesmo na intelectualidade os pensadores de Direita poderiam ser contados aos dedos. Como fruto da revolução comunista de 1917 na antiga União Soviética, o pensamento de Esquerda era o mais comum na intelectualidade, em uma espécie de 7 a 1, entre os classificados como de Direita.

Ser de Esquerda era estar associado à defesa dos pobres e opŕimidos e mesmo no campo religioso àqueles que ao contrário dos ricos, teriam acesso mais fácil ao paraíso. No campo do catolicismo isso deu no pensamento libertário da Teologia da Libertação.

Na Era Getúlio, ocorria o destaque para a esquerda abrigada no partido Comunista, mas em sua maioria no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), com o Partido Social Democrático (PSD), fazendo uma espécie de contraponto, enquanto no campo da direita ponteava a União Democrática Nacional (UDN).

O Brasil era o Brasil rural, onde se concentrava a maioria da população. Com o processo de industrialização no período da II Guerra, as cidades começaram a crescer em população com a diminuição da população agrária. O fluxo nordestino para São Paulo, principalmente, bem como a concentração de imigrantes aceleraram a urbanização do país.

A visão de dos Brasil ficou ainda mais nítida. Os do andar de cima – os ricos e parcela de uma classe médica que sonhava em ser rica e até mesmo de pobres que acalentavam este mesmo sonho possível por mecanismos como a fama no meio artístico e pelos esportes. E do outro lado uma imensidão de pobres padecendo em nosso vale de lágrimas.
Getúlio foi considerado o pai do pobre, com a adoção de algumas medidas benéficas para os trabalhadores.

Carlos Lacerda, ex-quadro comunista na juventude, ao se bandear para o outro lado passou a ser o principal político da direita brasileira.

Para alguns havia a sensação de que Getúlio representando o populismo mantinha a balança pendendo para os menos favorecidos. A classe média crescente e os ricos acalentavam o surgimento de um governo que as colocasse politicamente e socialmente como prioritárias.

Na explicação de Max Weber o surgimento do capitalismo acarreta isso. O Brasil de país de maioria católica, por exemplo, enfrenta hoje a ascensão vertiginosa dos evangélicos. Houve tempo que se dizer protestante no Brasil era ser olhado com maus olhos. Agora, há indícios de que podem se tornar maioria dentro de algum tempo.

O pensamento conservador da Igreja era a de que o reino a ser perseguido não é deste mundo, levando muitos pobres a uma espécie de conformismo com a situação até mesmo de miséria. O socialismo levantou a bandeira de um reino de felicidades ainda neste mundo. A revolução Soviética, de 1917, Mao com sua China e em 1959 Cuba de Fidel Castro e Che Guevara despertaram em muitos, sobretudo, entre os jovens essa esperança. A Teologia da Libertação e as Encíclicas do papa João XXIII acenavam com uma espécie de opção pelos pobres.

Na Guerra Fria entre o capitalismo e socialismo, o primeiro colocou o dinheiro na parada. O partido único da Rússia, com sua imprensa única e pensamento único, emperrou o desenvolvimento industrial voltado para o consumo. Os filmes glamorosos de Hollywood, os carrões da ford e chevrolet entre outros fabricantes, a matéria plástica tomando conta dos lares com geladeiras, fogões e máquinas de lavar e o prazer lúdico do consumo embalando ao som do melhor rock and roll do planeta, mostravam de maneira clara qual o lado mais próximo da chamada felicidade na terra. O estímulo ao individualismo, a criação da ilusão ou não de que pode se vencer na vida com esforços próprios fez do “sonho americano”, um sonho em nível mundial.

O capitalismo resiste porque ele como um camaleão tem o poder de se transformar. Ele chega mais rápido ao pão e circo romano. Temia-se que no futuro o comunismo leva-se as pessoas a se vestirem igual, o capitalismo foi lá e botou o mundo pra se vestir de jeans. Acreditava-se que as pessoas passassem a ter um pensamento padronizado, o capitalismo foi lá e por meio dos meios de comunicação, em especial a televisão, instituiu uma forma de pensar similar entre a maioria. Foi masi complacente com as drogas e diversão do que o mundo do socialismo, visto como algo cinzento com as pessoas tendo de pular muro ou remando em direção a Miami.

Os soviéticos foram decisivos para a derrota do nazismo, mas na mente coletiva, calcado pelos filmes os norte-americanos figuram como os grandes libertadores. A propaganda como alma do negócio é arma contundente no mundo capitalista. Ele faz você mudar a estética da mulher rechonchuda e passar a amar as mulheres esquálidas que se matam de fome e se enchem de curvas em locais prazerosos, como se enchem os pneus dos automóveis ou dos air-bags estourando em nossos peitos quando excedemos em velocidades.

Desse modo, a esquerda que antes era a grande atração da maioria, especialmente dos jovens, perdeu terreno para o glamour do mundo capitalista, mesmo com engarrafamento no trânsito, contornado pelas motos sem capacetes e a eterna festa regada as drogas lícitas e ilícitas permissíveis aos que “vencem na vida”.

A esquerda faz um discurso em defesa prioritária dos pobres, em um mundo que nem os pobres querem ser pobres e sonham com um carro mesmo usado que os levem de algum lugar para lugar nenhum com isopor lotado de cerveja e refrigerantes gelados.
Na hora da passeata, a esquerda apresenta velhos slogans e velhos discursos, enquanto a direita coloca na rua belas mulheres com bundas e seios de fora.

“Não precisas de um homem do tempo para saber para que lado sopra o vento”, diria um tal de Mr. Zimmerman, também conhecido como Bob Dylan.

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