Rádio esportivo: a palavra de um conhecedor

Áureo Ameno em 7 de julho de 2015 - 15:16 em RadiÁureo
  
  

RadiÁureo - Rádio e microfone

Recebi do amigo Maurício Menezes, experiente locutor e executivo esportivo, de quem tive a honra de ser colega na Rádio Globo, um comentário que retrata as dificuldades enfrentadas, há tempos, pelo rádio esportivo. Maurício, agora, exerce a advocacia em sua terra, Juiz de Fora. E uma opinião tão oportuna, que vou transcrever, na íntegra, as suas considerações. Diz ele:

“O rádio esportivo: tenho lido nas redes sociais algumas observações de radialistas e, mesmo de ouvintes, sobre o enfraquecimento do rádio no Brasil, especialmente o rádio esportivo. Com a experiência de 38 anos de rádio, inicialmente em Juiz de Fora, minha terra natal, e, posteriormente, no Rio de Janeiro, durante 26 anos, dos quais 18 anos na Rádio Globo, como locutor esportivo e coordenador-geral de esportes e 8 anos na Rádio Nacional, exercendo as mesmas funções, posso dizer que esse enfraquecimento vem ocorrendo desde o ano 2000, mais ou menos.

Foi a partir daí que as grandes emissoras do país começaram a fazer off-tube, sistematicamente, ou seja, colocar narradores e comentaristas para transmitir os jogos não do estádio, e sim do próprio estúdio da rádio, utilizando as imagens da televisão. Isso representou um grande desgaste para os narradores e comentaristas, pois transmitiam os jogos sem estar no local, sabendo-se que o narrador de rádio é um criador de emoções e o ambiente, ao vivo, no estádio, ajuda e muito na transmissão. A tela da TV não dá a amplitude de todo o campo e o comentarista ficou também muito prejudicado para analisar, pois não via o todo.

Se as grandes emissoras faziam isso, por medida de economia – e ainda fazem – imaginem as pequenas emissoras? Praticamente todas passaram a fazer. Por que isso ocorreu? Porque antes as grandes emissoras, ou algumas delas, tinham permuta com empresas aéreas, hotéis e locadoras, ou seja, para transmitir os jogos ao vivo, no estádio, em outras cidades, não era necessário pagar as passagens aéreas de seus funcionários, assim como hotéis e locadoras, pois isso era feito em troca de publicidade na programação das emissoras. É claro que isso representa dinheiro, pois ocupa espaço na programação, mas era um dinheiro que as emissoras não precisavam desembolsar para aquela finalidade.

Nas viagens, para transmissões ao vivo, a equipe esportiva, no caso, recebia apenas a verba de alimentação (diárias), já que os bilhetes aéreos eram permuta, assim como hotéis e locadoras. Ocorre que, numa determinada época, as empresas aéreas entraram em crise no país e as permutas com as emissoras foram canceladas. Posteriormente, as permutas com hotéis e locadoras também foram canceladas. Resultado: as emissoras passaram a ter que pagar tudo nas viagens, ou seja, passagens aéreas, hotéis, transporte terrestre, diárias dos profissionais e circuitos de transmissão.

Com o número de jogos aumentando cada vez mais e, consequentemente, as despesas, as emissoras, já sem as permutas, não aguentaram mais bancar as transmissões ao vivo, pois ficava muito caro. Dai partiram para o off-tube, o que é feito até hoje, para diminuir custos. Um outro fator que enfraqueceu muito a audiência das emissoras de rádio e, consequentemente, o faturamento, foi o fortalecimento da TV fechada, cujo número de assinantes cresceu assustadoramente. A TV fechada passou a transmitir tudo, inclusive, fazendo pré-jogo e pós-jogo, horários tradicionais do rádio esportivo, e com a vantagem de mostrar imagens de todos os estádios, gols, debates, etc.

Um detalhe importante: antes, caminhando pelas ruas, ouvíamos sempre um rádio ligado nos bares. Hoje em dia isso é raro, pois normalmente há televisão ligada e muitas pessoas, mesmo de pé, vendo o jogo pela TV. O mesmo ocorre nas portarias de edifícios. Antes, os porteiros tinham sempre um rádio ligado. Hoje, eles têm é televisão, mesmo que pequena. Fora isso, hoje em dia, ainda existem as outras mídias concorrendo com o rádio. Resultado: o rádio está encurralado, com baixa audiência e pouco faturamento, sem poder de investimento.

Se antes das situações que coloquei o rádio já tinha a menor fatia do bolo publicitário, imagine agora? Soma-se a isso o fato de que algumas emissoras ainda são dirigidas por pessoas que não são do ramo. Penso que a única saída para o rádio é reunir pessoas que são do ramo, cabeças pensantes que possam buscar novos caminhos. Abraço a todos”.

Assino embaixo da opinião do “Danadinho”. Ele viveu o problema durante o longo tempo que foi coordenador dos Departamentos Esportivos da Globo e da Nacional. Está por dentro. Existem, na minha opinião, outros fatores, como a presença da televisão que hoje manda no futebol nacional, estabelecendo horários e até regras de trabalho (que incluem os profissionais de rádio) nos estádios do país. É ela que vem pagando, há muito tempo, as despesas dos clubes.

Outro fator, na minha opinião, é a falta de renovação no rádio esportivo. Coisa que só agora vem sendo levada a sério, com a nova equipe da Transamérica FM. Nela, três ou quatro jovens valores já podem trabalhar em qualquer emissora do país. Vamos torcer para que esse projeto continue.

E já que estou falando da Transamérica, um abraço para o casal Mauricio Filardi e Érika. Mais um novo vascaíno (ou vascaína) já está vindo por ai. Este outro Maurício, também é coordenador de equipe e promissor comentarista esportivo. Oportunamente, voltaremos a tratar do assunto.

Qual a sua opinião?