Todo dia começa pela madrugada… o do rádio também!

Áureo Ameno em 23 de julho de 2015 - 17:59 em RadiÁureo
  
  

Quando eu comecei a trabalhar em rádio, a maioria das emissoras do Rio encerrava as suas transmissões à meia-noite e só voltavam por volta de cinco, seis da manhã. Além da economia, dizia-se que a parada também era boa para descansar os transmissores. Na verdade, os dirigentes do rádio pareciam ignorar a imenso universo de pessoas que ficavam e ainda ficam acordadas, enquanto a maioria dorme. E que, também, o rádio seria o companheiro ideal dos trabalhadores notívagos, daqueles que viajavam, de madrugada, em seus carros.

RadiÁureo - Oswaldo Diniz Magalhães

Oswaldo Diniz Magalhães recebe estátua em sua homenagem na Praça Saens Pena (Foto: Divulgação)

No começo da década de 50 era o meu saudoso amigo Carlos Noronha, um mineiro de voz bonita que, à meia-noite em ponto, encerrava os trabalhos da Rádio Globo. Eu, no começo de carreira, durante muito tempo, cheio de sono, reabri os trabalhos às seis da manhã. Vinha com a Hora da Ginástica, do professor Oswaldo Diniz Magalhães. E coube a ele (sempre ele), Mário Luiz, grande inovador do rádio, emendar as 24 horas no ar. Foi um “pega pra capar “. O cara que deveria substituir o Noronha sempre chegava atrasado e era demitido. O educadíssimo e disciplinadíssimo Carlos Noronha tinha de emendar noite com madrugada. O horário passou a ser visto como porta de saída da Globo. Era o horário do famoso “bilhete azul “. Chegou atrasado, rua!

Foi assim que dois geniais comunicadores chegaram a esse horário. Não se sabe se por promoção ou por castigo. Só se sabe que Adelzon Alves (da meia noite às quatro da manhã) e Luciano Alves (de quatro às seis da manhã) criaram um verdadeiro horário nobre, nas madrugadas da GLOBO, nas madrugadas do Brasil e até do exterior. O Luciano tinha ouvintes em Paris e outras cidades europeias para os brasileiros que lá viviam. Construíram, fizeram, instituíram, decretaram, concretizaram um novo horário para o rádio. Passaram a ser os donos das madrugadas brasileiras. Uma audiência incrível. E, coincidência ou não, a Globo começou a aumentar a sua audiência geral.

Muita gente que dormia cedo, só de ouvir elogios, passou a dormir mais tarde para ouvir a madrugada global. Quem entrava depois do Luciano, às seis horas, já pegava a rádio com uma grande audiência. Foi assim com Paulo Moreno, Paulo Giovanni, Valdir Vieira e Antônio Carlos. Depois, era covardia. Entrava no ar o maior nome do rádio, Haroldo de Andrade, a audiência sempre aumentando, uma pausa para a imbatível Patrulha da Cidade da Tupi e a Globo continuava liderando o resto da programação.

O segredo está na porteira…

Eu fazia parte da equipe de criação e programação, dirigida pelo Mario Luiz. Não havia gênios: apenas pessoas que sabiam fazer e que gostavam daquilo que faziam. O rádio madrigal deixou de ser um mistério. Passou a ser um rádio dinâmico, informativo, de utilidade pública, entretenimento e muita interação com o ouvinte. Um rádio amigo do porteiro, do vigilante, do cara que ia ou voltava do trabalho, do notívago vagabundo, mesmo porque, tudo isso coincidiu com a advento do rádio transistor.

Era o tempo do rádio companheiro. Que você carregava no bolso, que levava para todos os lugares. Então, descobriu-se que um dos requisitos de boa audiência era o hábito. A última coisa que o cara fazia, antes de dormir, era desligar o rádio, sintonizado na Globo. Quando não dormia com ele ligado no Adelzon Alves e acordando no Paulo Moreno.

RadiÁureo - Adelzon Alves e Luciano Alves

Adelzon Alves (esq.) e Luciano Alves (dir.)

Logicamente, liderando a audiência na madrugada, ficava muito mais fácil continuar liderando durante o resto da programação. Era uma questão de pavimentar uma bela estrada já aberta. A gente, que fazia rádio, passou a falar no “abridor da porteira “. No caso da Globo eram dois – Adelzon e Luciano. Eles encerravam seu trabalho entregando aos substitutos uma audiência já elevada. Não há muito segredo nisso. Qualquer comunicador adora o colega que lhe entrega o horário com a audiência lá em cima. Perguntem ao Clovis Monteiro e ao Antônio Carlos!

Pelo exposto, modestamente, nas “linhas supras “ (como se dizia no século passado) chego a nenhuma nova conclusão. A nada de novo. Nem chego. Permaneço no ponto em que sempre estive. E que sempre deu certo. Quem quiser aumentar a sua audiência tem que começar pela “porteira “, ou seja, pela madrugada. Está mais do que provado que para fazer sucesso, o rádio não deve funcionar como calmante. Como pílula pra fazer dormir. Tem que ser tão bem feito que tire o sono do ouvinte. Tem que ser mais despertador do que cobertor.

Naqueles tempos da Rádio a gente tinha um cuidado extremo com a madrugada. Era a grande porta da audiência, do hábito, da interatividade com o ouvinte. O rádio não pode repetir o que fez a Bandeirantes, no passado, que, de segunda a sábado apresentava Paulo Lopes, Cidinha Campos, Haroldo de Andrade e, aos sábados, fechava pra balanço, apresentando uma programação totalmente diferente, de mau conteúdo e inaudível. Agora, quem não tem compromisso com a audiência ou não quer recuperar o terreno perdido, volte a fechar a emissora à meia noite pra reabrir às seis da manhã. Pelo menos, vai conter algumas despesas. E descansar os transmissores. E (quem sabe?) os ouvidos dos madrugadores. E os ouvintes “madrugadeiros”.

Qual a sua opinião?