Não existe ‘zebra’ no rádio

Eu nunca levei jeito para fazer pão
Áureo Ameno em 28 de julho de 2015 - 19:08 em RadiÁureo
  
  

RadiÁureo - Zebra

É voz corrente que planejamento, organização e competência são requisitos para se ter sucesso em qualquer empreendimento. No Rádio, eu tenho a certeza que sim. Por isso, quando bem administrado, quando dirigido por pessoas do ramo, se o som é bom, a potência elevada, a programação é de qualidade, não pode dar “zebra”. De vez em quando pode aparecer um protegido de alguém. Apadrinhado. Mas, com o tempo, ou ele aprende ou cai fora. Ou melhor, é expelido pela força da comunicação. O rádio não admite um estranho no ninho.

Certa vez, o Haroldo de Andrade comentou comigo que estavam para ocorrer mudanças na Globo. Eu respondi que se a empresa continuasse fazendo rádio, a gente não precisava se preocupar. Se mudassem para o ramo de padaria, aí sim, estaríamos fubicados. Eu nunca levei jeito pra fazer pão. É aquela história. Cada um no seu. Padeiro faz pão, açougueiro vende carne, radialista faz rádio. Este é o segredo do sucesso de duas emissoras na faixa AM do Rio de Janeiro.

Li, nesse site, a reclamação de um fã de rádio sobre o foco AM, no Rio, estar limitado à TUPI e à GLOBO. Diz ele que, em outras emissoras, existem excelentes profissionais. Concordo. Agora mesmo, a Manchete perde Rodrigo Campos, uma das gratas revelações do rádio esportivo. Sidnei Marinho, excelente narrador esportivo, está fora do rádio carioca. Uma injustiça. No “dial” FM, a garotada da TRANSAMÉRICA está dando um show de competência, também no futebol. Sempre “corujei” as emissoras de menor audiência. Foi assim que falei ao Mário Luiz sobre dois comunicadores que atuavam na Rádio Capital, Rio. Ele ouviu e levou os dois para a Globo. Clovis Monteiro e Silvio Samper, com o seu talento, não pararam de crescer. Mais tarde foram para a TUPI, onde o Clovis continua fazendo sucesso. Mas, principalmente no AM, é grande a distância da TUPI e GLOBO para outras emissoras, digamos, de menor investimento. Daí a polarização em torno das duas.

Nenhuma surpresa

Aonde eu quero chegar? Ao último IBOPE, divulgado nesta página. Vamos nos ater às transmissões esportivas:

A TUPI já liderava sem o Penido. Jota Santiago, talentoso, voz bonita, narração irrepreensível, dava conta do recado. Segurou a liderança. Com a ida do José Carlos Araújo, Gerson e Gilson Ricardo, essa audiência tinha de aumentar.

Conforme eu disse, e acho, em rádio bem feito não pode dar “zebra”. São três profissionais de primeira. Garotinho é um ícone do Rádio. Voltando a fazer a dupla famosa de cabine com o Apolinho, melhor ainda. Se a audiência não crescesse, alguma coisa estranha estaria acontecendo. Para mim, para quem ouve rádio, não foi surpresa nenhuma. Pelé em forma entra fácil em qualquer time. Foi o que aconteceu com o já timaço da TUPI. Ficou mais forte.

Eu não poderia me esquecer da CBN que faz um bom trabalho no futebol. Evaldo José, na minha opinião, tem lugar certo na seleção do rádio.

Perdendo a força?

A Rádio Globo, infelizmente, foi sucateada em matéria de criação e talentos. Chamaram o Mário Luiz e o mandaram embora, só porque ele entendia muito de rádio. Mexeram na programação, que vinha liderando o rádio brasileiro, há mais de trinta anos. Acabaram com a regionalidade do rádio, para informar como andava o trânsito na Avenida Paulista ou como foi o treino do Corinthians.

A TUPI não mexeu em nada. Dirigida por gente do ramo, aproveitou-se da situação e conquistou a liderança. A atual direção da GLOBO procura recuperar a emissora. Não tem culpa. Entrou para consertar. Só que, para CONSTRUIR leva-se muito mais tempo do que para DESTRUIR. Consertar é mais difícil do que criar. Mesmo porque, vivemos numa situação de crise.

O rádio já não é como antigamente. A GLOBO, com Waldir Amaral, vendia cinco cotas do futebol. E ficavam grandes empresas na fila. No ramo das cervejas, então, era uma festa. A BRAHMA sempre renovando e as concorrentes torcendo para que ela lhes cedesse o lugar. O Zé Carlos Araujo viveu essa fase das vacas gordas. Acumulava atividades no Departamento Comercial da Globo. Com o mesmo brilho com que narrava futebol e apresentava programas. A coisa mudou. A comercialização, no rádio, ficou mais difícil. Muita gente acha que o rádio, como instituição, vem perdendo a força. Não acredito nisso.

O que não pode mais acontecer é aquela velha história de o cara chegar na emissora pra pedir emprego. Perguntam o que ele sabe fazer. Ele responde que é repórter. Mandam ele para o jornalismo. Outro diz que é redator. Botam ele pra redigir programas. Outro diz que é operador. É encaminhado ao setor técnico. Aí, aparece o cara de pau dizendo que não sabe fazer porra nenhuma. Que em matéria de rádio ele não sabe nem trocar pilhas. O “manda-chuva”, com um sorriso no rosto, dá a solução: “se você não sabe fazer nada, vai ser diretor”.

No mais…

Conheci um figurão na TUPI cujo sonho de consumo era ter o comunicador Antônio Carlos de volta à emissora. Bem, na minha rádio, ele trabalharia. Participei do seu programa durante vários anos e sou testemunha de que se trata de um excelente profissional. Além disso, bom vendedor. No meu tempo, ele tinha, na Globo (e em outras emissoras) contas do GUANABARA (que ainda mantém), Café Bom Dia, Imperatriz Tem de Tudo, entre outras. Não é à toa que ele resiste na liderança do horário..

Ai, Jesus…

De um talentoso e jovem narrador esportivo do Rio de Janeiro, criticando o treinador do Vasco pelas lambanças ocorridas no jogo com o Palmeiras: “Nem JESUS, que CRIOU os homens, perdoaria isso…” Houve aí um lapso de hierarquia. Quem criou os homens foi DEUS PAI e não Jesus, que é Deus filho. Foi um pequeno escorregão que não chega a manchar o excelente trabalho desse profissional.

Matérias para essa coluna ameno@globo.com

Qual a sua opinião?