Radializando

Ou falta de assunto?
Áureo Ameno em 12 de agosto de 2015 - 13:01 em RadiÁureo
  
  
RadiÁureo: Antônio Carlos, Roberto Canázio, Clóvis Monteiro e Haroldo Junior

Antônio Carlos, Roberto Canázio, Clóvis Monteiro e Haroldo Junior

Tem dia que a gente acorda pau da vida com a vida. Parece que nada vai dar certo. Pego o jornal, que o entregador deixou na minha porta antes das cinco. O mesmo entregador que se alegra com um “pixuleco” de Natal. (Desculpe, amigo de horários desencontrados. Em vez de “pixuleco”, leia, agrado. “Pixuleco” é do mal. Significa propina no mundo da corrupção. Você é trabalhador, sério, daqueles que desmentem a máxima “Deus ajuda a quem cedo madruga”).

Logo na primeira página, fico sabendo que a conta de água vai subir. Nada de novo. Novidade, hilária novidade, o motivo do aumento: o Governo pediu, o povo atendeu, e economizou água. Até dedurava, ou, para ficar mais atualizado, delatava quem desperdiçava água. Mas a economia foi tão grande que o faturamento das empresas distribuidoras de água caiu. E por isso elas pediram licença pra aumentar as tarifas. Coisas dessa pátria amada, idolatrada, inverossímil e gaiata. Contando isso em Portugal, vão dizer que é piada de brasileiro. De mau gosto, humor negro, mas é mesmo piada.

E as outras notícias, menos hilárias e mais preocupantes, compunham o conteúdo macabro do jornal. Assaltos, mortes, corrupção, inflação alta, pauta bomba, guerra de traficantes, insegurança, desemprego, falta de dinheiro, de transporte e de vergonha na cara. Com tantas notícias ruins, a gente entra em estado de “brochura” emocional, mental e metabólica.

Difícil encontrar uma notícia boa. Fecho o jornal, ligo o rádio. Lá está o Antônio Carlos, com o seu programa ainda líder de audiência. Um dos poucos com essa tarja na Globo. Com aquela alegria habitual, o talento da Jussara, o humor e bom humor do Gélcio Cunha, muita informação. E ainda tem a espetacular sonoplastia do Tuninho, ora malvadeza, ora bondade. Um craque da mesa. Senti saudade dos tempos em que também dele participava. Programa de rádio alegre e bem feito, como o do Antônio Carlos, levanta o astral da gente. Aliás, o Antônio Carlos já está tratando da renovação do seu contrato. Bom pra ele, ótimo pra Globo, melhor ainda para o ouvinte. Com ele, na Globo, e o Clóvis Monteiro, na Tupi, os ouvintes matinais do rádio estão bem servidos. Dois profissionais de qualidade, sérios, competentes e doutores numa ciência chamada “conhecimento da alma do povo”. E eles já brigam com a televisão, principalmente a Rede Globo, que passou a dar um conteúdo de rádio à sua programação matutina. E com a competência de sempre.

Para vencer essa concorrência, o rádio tem que fazer uso constante da tecnologia. Antigamente, ele era ouvido na sala de visita, um caixote cheio de válvulas e de ruídos desagradáveis. Veio o transistor e o rádio passou a ser levado no bolso. Para qualquer lugar. Este velho instrumento de comunicação não pode parar no tempo. Tem que correr, sempre, fungando no cangote da tecnologia. Aí, ligo na Tupi, e lá está o Haroldinho. Vi esse moleque de calça curta, já com aquele “DNA” dos Andrade.

Ele e os dois irmãos (Celso e Wilson) tiveram a quem puxar. Celso era um talento. Voz parecida com a do pai. Pena que morreu cedo. Wilson também tem a “pegada” do pai, Haroldão. Outro excelente profissional que, infelizmente, parou de fazer rádio. Haroldinho sempre foi estudioso, talentoso. Talvez, pela diferença de idade e maior experiência, eu tenha ensinado alguma coisa a ele. Mas, certamente, aprendi, também, muito com ele. Sinceramente, acho que a Rádio Globo perdeu uma grande oportunidade não levando o Haroldinho logo depois da morte do seu pai. Além dos seus, ele levaria grande parte dos ouvintes do Haroldão. Sabe tudo. Aprendeu com o pai que teve, e sou testemunha disso, disciplinado aluno. Um aprendizado que só se invertia nas “peladas” de fins de semana, no belo sítio de Campo Grande. Aí, era o Haroldinho bom de bola, que ensinara ao Haroldão.

Esses que aqui citei têm, entre muitas outras, uma virtude em comum: Escola do Haroldão. Antônio Carlos, Clóvis Monteiro e Haroldinho nunca entram no estúdio de mãos abanando. Noventa por cento dos programas são escritos. Produzidos. Por gente de qualidade. Redatores que sabem escrever para o rádio. Repórteres competentes e “furões”. São profissionais de verdade. E, como tal, respeitam os profissionais nos quais se apoiam. Rádio não foi feito para o improviso. Tem que ser produzido. Quanto mais redigido, melhor. Escrita é conteúdo. Improviso é porta aberta, com entrada grátis e vista para a praia do besteirol. Rádio sério não admite o besteirol. E como já fazia Haroldo de Andrade, os ora aqui citados têm mais uma coisa em comum. Participam, diretamente, da produção do programa. Discutem, dão ideias, aceitam ideias, tudo dentro dos limites de profissionais que se respeitam. No geral, a Tupi continua ganhando da Globo, mas, de manhã, o negócio tá duro. E não é tesão de mijo. Antônio Carlos, Padre Marcelo e Canázio seguram a “barra” pra Globo.

Informações para essa coluna, ameno@globo.com

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