O dia de quase morte do futebol arte

Redação em 5 de julho de 2010 - 13:26 em Notícias
  
  

Por Carlos Alberto Gonçalves e Sérgio Santos

Era junho de 1982. Eu tinha acabado de chegar no Rio de Janeiro, em época difícil de nosso país. Era negritude absoluta no país dos militares. A cidade toda em verde-amarelo, as bandeirinhas de poste a poste e os rojões espalhando o cheiro de pólvora pelo ar.

Copa da Espanha. Do meu apartamento, eu vi Júnior sambando, vi Falcão e Zico. Vi os três gols de um Paolo Rossi que nada igual fizera antes daquele dia, e que nada igual faria depois. Com o perdão dos mais velhos, faço parte de uma geração para a qual o time de 82 foi o melhor.

Me desculpem os que sofreram com o gol de Gigia, em 50, numa tristeza meio osmótica, resultado do empilhamento de gente demais pra ver uma seleção apenas comum.

Em 82 em vi um monstro da narração esportiva encolher ao microfone. Ouvi um Luciano do Valle atônito, sem saber o que estava acontecendo. Vi meu pai chorar, chocado, estarrecido.

 Aquela seleção é grande parte da saudade que tenho da minha juventude. Zico, Sócrates, Júnior… e Telê. Aquele senhor de estilo durão, costeletas grisalhas e cara de boa gente me marcou uma geração. Tinha o mesmo carisma dos jogadores e era tão lembrado quanto eles. Montou o Estado da Arte em forma de seleção e me fez feliz, muito feliz – até Paolo Rossi fazer aquilo.

Certo dia ouvi Luís Mendes dizer que após o jogo, Telê entrara atrasado na coletiva. E foi aplaudido de pé pela crônica esportiva presente. Estava decretada, talvez, a morte do chamado Futebol Arte.

Telê, aquele senhor de trajes simples e topete esvoaçante, não demonstrou tristeza. Não lembro dessa cena. Foi o primeiro a ser chamado de Professor, como hoje é chamado qualquer um por seus comandados semi-analfabetos, com suas frases decoradas.

Telê Santana terminou sua vida de forma triste, pelo menos para mim. Sem parte da perna esquerda, sem parte da fala, esteve sedado na maior parte do tempo, acamado em Belo Horizonte. Numa cama, como minha mãe em 1982. Sua morte fez um pedaço daquela geração ir junto, com a tristeza daquele 82. O Professor se foi sem ter ganhado a Copa do Mundo com a melhor seleção que eu vi.

Inesquecível ouvir Fernando Calazans, respondendo a essa provocação da vida: Azar da Copa do Mundo!

A celebração do Futebol Brucutu e de resultados passa pela garganta na esperança de ver um triunfo que a genialidade não conseguiu. Hoje faz 28 anos do que pode ser considerado uma verdadeira tragédia do Sarriá, ao contrário da derrota anunciada do grupo de Dunga em 2010. Dia triste que traz felicidades que o tempo não permite mais.

*Carlos Alberto Gonçalves e Sérgio Santos

Qual a sua opinião?