O rádio carioca em ebulição

Redação em 9 de maio de 2012 - 11:09 em Notícias
  
  

 

 

Do Observatório da Imprensa

Como que a revisitar a época em que os sinais sonoros das emissoras de rádio ecoavam pelos estádios de futebol, tão fortes a ponto de emoldurar na galeria dos tipos nacionais a imagem do homem com o radinho de pilha colado ao ouvido, o radialismo esportivo voltou a agitar os torcedores do Rio de Janeiro na semana passada. Não só, mas também, e principalmente, jornalistas, grandes emissoras, mercado publicitário e ouvintes. Repercutiu em notas nos prestigiosos e disputados espaços de Lauro Jardim em Veja e Ancelmo Gois no Globo,na primeira página do jornal Extra, popular e de grande circulação (24/4), nos blogs e nas redes sociais: José Carlos Araújo, conhecido pela alcunha de “Garotinho”, um dos maiores narradores da história da comunicação brasileira, decidira trocar a Rádio Globo, emissora que o acolhe há 41 anos, somando suas duas passagens, por um projeto inovador no Brasil e ainda cercado de sigilo, a Rádio Bradesco Esportes FM. Deverão acompanhá-lo o comentarista Gérson, o “Canhotinha de Ouro”, tricampeão na Copa de 1970 e o apresentador e repórter Gilson Ricardo, que este ano completou, com festejos, 35 de serviços prestados à Rádio Globo.

Atacada na jugular, a emissora contra-atacara pesado: repatriou Luiz Penido, o “Garotão da Galera”, que nos últimos anos lhe roubara o primeiro lugar no Ibope das transmissões esportivas pelos microfones da Rádio Tupi, a principal concorrente da Globo. Penido, que começou sua carreira na Globo no fim dos anos 60, estava havia quinze anos na Tupi, em sua segunda passagem por ela; na primeira, permanecera por cinco anos, entre 1988 e 1993. Como a equipe da Bradesco ainda está para ser montada, é provável que outras movimentações aconteçam.

Uma novidade

Construída historicamente, a identidade de um profissional de comunicação com o veículo em que trabalha dá-se pelo seu tempo de permanência nele, mas também pela incorporação ideológica dos princípios editoriais que norteiam o rádio, o jornal, a televisão e pela adequação estética entre ambos. É o que se chama de “perfil”. Quantas vezes se ouve que um profissional não se encaixa no perfil de uma emissora, devido ao desencaixe – estético, editorial – entre ambos? Por essas três variáveis quantitativas e qualitativas, “Garotinho” e “Garotão” eram extremamente identificados com a Rádio Globo e com a Rádio Tupi, respectivamente. Daí que a defecção deles soe, aos ouvidos acostumados a associar suas vozes poderosas às emissoras que lhes davam o microfone, como um desencaixe. Como ouvir a voz do Penido justamente na rival? E a de Garotinho longe da Globo?

Visto em perspectiva, acima das emoções imediatas, este momento é a constatação de que a junção do rádio com o futebol, que a muitos parecia fadada à perda constante de centralidade por causa do excesso de imagens que enquadram o esporte – cobertura intensa da televisão aberta e por cabo –, permanece forte como tradição. Saíram da moldura o torcedor em pé na extinta geral e seu radinho de pilha: foram substituídos pelo que, sentado nas cadeiras numeradas ou no bar da esquina em frente a uma televisão LCD, liga iPhone, iPod, iPad e todas estas maravilhas digitais que abrem um abismo de separação para a era analógica. Ou por aquele que, em outro estado ou em outro país, conecta a emissora pela internet e ouve o jogo ou o noticiário de seu time de coração.

À diferença de outras movimentações do rádio carioca, nesta há uma novidade que requer dos analistas de mídia mais atenção. Por isso, uma digressão histórica faz-se necessária.

O modelo de “futebol show”

A história contemporânea do rádio esportivo carioca tem três momentos definidores:

1. A transferência de José Carlos Araújo, o “Garotinho”, para a Rádio Nacional, no início de 1977;

2. O retorno de “Garotinho” à Rádio Globo, em dezembro de 1984;

3. A transferência de Luiz Penido para a Rádio Tupi, em outubro de 1988

Garotinho era o segundo narrador da equipe chefiada por Waldir Amaral na Rádio Globo quando uma proposta da Rádio Nacional, que fora incorporada à recém-criada Radiobrás – uma rede estatal de emissoras de rádio e televisão surgida em 1975, no governo militar, e que três décadas depois transformou-se, em nova metamorfose comunicativa, na Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Garotinho era uma estrela em ascensão e Waldir Amaral, um dos responsáveis pelas mudanças na narração esportiva a partir dos anos 60. O surgimento da televisão obrigou o rádio a mudar; e, ante a incredulidade de muitos, o meio deu sua primeira prova de manifestação camaleônica, ao calcar sua base no trinômio “música-esporte-notícia”, em que as transmissões de futebol – e também de basquete e outros esportes, secundariamente – tinham amplo espaço na programação. Waldir conferiu a essas transmissões o status de “show”, com vinhetas para chamar o nome dos membros da equipe de esportes e para referir-se aos clubes, sinais sonoros, bordões, movimentação de repórteres, informações de outros jogos.

Tendo ingressado na Rádio Globo em 1964, depois de passagens por pequenas emissoras, Garotinho aprendeu muito com Waldir, a quem sempre considerou um mestre. Bebeu muito em sua fonte, a ponto de querer aumentar-lhe o volume e desviar-lhe o curso para a outrora gloriosa Rádio Nacional, em decadência desde que o novo modelo de rádio roubou-lhe o presente e encheu-lhe o passado das glórias dos programas de auditório e das telenovelas.

Na nova emissora, Garotinho procurou aumentar o status de “show” que Waldir criara. Com estilo de narração mais jovem, lépido, e com nomes consagrados ao seu lado, como a dupla de “trepidantes” – repórteres de campo – Washington Rodrigues e Deni Menezes, que se consagrara na Copa de 70, além do comentarista Luiz Mendes, Garotinho conquistou muita audiência, tirou pontos das rivais Globo e Tupi e impôs o modelo mais popular de “futebol show”. Tanto que, em dezembro de 1984, a Globo chamou-o de volta para ser o primeiro narrador e o chefe da equipe. Waldir Amaral já havia se aposentado dos microfones, e Jorge Curi, com quem Waldir dividia a transmissão, cada um narrando um tempo, foi para a Rádio Tupi. (Contemporâneo de Garotinho, Osmar Santos desempenhou esse papel de modernizador da linguagem do rádio esportivo em São Paulo, primeiro na Jovem Pan, depois na Globo e na Excelsior.)

A vida em paralelo

Foi o início da Era de Ouro do Garotinho na Rádio Globo. Ao lado de Washington Rodrigues, já alçado ao posto de comentarista, manteve predominância total no Ibope. Garotinho passou a ser sinônimo de Rádio Globo. A concorrência, não obstante a qualidade inquestionável dos profissionais, não lhe fazia frente. E passou a ver nele, em seu estilo popular-espetáculo, o espelho cujos reflexos, ainda que côncavos, poderiam torná-la mais competitiva. Não foi por outro motivo que a Rádio Tupi, na última grande movimentação do segmento, tirou Luiz Penido da Globo, onde estava há 24 anos. O “Juventude Globo”, como era conhecido, foi promovido a segundo narrador na Era Garotinho. Nestas mais de duas décadas, Penido, transformado em “Garotão da Galera”, firmou-se como o principal concorrente de “Garotinho” na mesma proporção em que o mercado definhava, criando monopólio entre as duas principais rádios populares do Rio de Janeiro.

Nos últimos anos, Penido assumiu a liderança das transmissões de futebol e dos programas esportivos da equipe por ele comandada. Seu estilo exacerbou-se no ato de conferir emoção às jogadas, aos jogadores e aos gols, por vezes com gritos e excesso de adjetivações. Não que não haja diferença estilística entre eles: Garotinho, discípulo de Waldir Amaral, tem a narração “cantada”; Garotão, egresso da escola de Doalcei Camargo e Jorge Curi, tem a narração “falada”, como se estivesse no mesmo degrau dos ouvintes, conversando com eles à mesa de bar.

Em vários aspectos, no entanto, a vida de ambos traça uma paralela: chegaram jovens à Rádio Globo, formaram-se nela, saíram para assumir o posto de narrador principal em outras emissoras, e a ela retornaram, consagrados, para liderar seu “Futebol Show”.

Uma oferta de criatividade

Que há de novo nesta ebulição do jornalismo esportivo radiofônico? É a entrada no mercado da emissora 100% esportiva, a Rádio Bradesco Esportes FM, em rede nas principais cidades do país. Ao menos no Rio, pela contratação de Garotinho, já causou impactou antes mesmo da estreia, que deve ser em maio. Há outra novidade, pouco comentada, mas igualmente importante: a agregação de uma grande marca ao nome da emissora. Não é um patrocinador de jornada, mas cocriadora do conceito e do conteúdo, dos quais pouco ainda se sabe, o que leva ao excesso de especulação.

Rádios voltadas para a transmissão de esportes, debates, mesas-redondas e noticiário esportivo não são novidades nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, há emissoras dos segmentos populares e jornalísticos que dedicam amplo espaço em sua programação ao futebol, esporte hegemônico, e em menor proporção, à Fórmula-1 e a outros esportes coletivos.

Mas pelo que se anuncia a Rádio Bradesco Esportes FM, será uma novidade que inverte a relação de oferta de criatividade do rádio para a televisão: entrará no ar duas décadas depois da consolidação das emissoras esportivas de TV por assinatura, que são várias: Fox Sports, os três canais do SporTV, a BandSports, o Esporte Interativo, ESPN Brasil, PFC. E ainda se aguarda a entrada da Sky Esportes Brasil. Haja esporte, haja amantes de esportes. Já a Globonews, que debutou no cabo em 1996, distou cinco anos da Rádio CBN – na qual Alice Maria mirou quando, responsável pela montagem do primeiro canal de notícias da televisão brasileira, começou a pensar nos profissionais.

A Era do Rádio e a Era da Imagem

Transmite-se tudo de relevante, pode-se assistir a tudo. É difícil, nesse cenário, apontar a televisão como inimiga do esporte, por diminuir a testosterona que faz o torcedor deslocar-se até o estádio. Porém houve um tempo em que esse pensamento era forte. Veja-se, por exemplo, o que o jornal O Globo publicou na seção esportiva da coluna “Há cinquenta anos” referindo-se ao distante ano de 1961:

“O deputado Gonzaga da Gama Filho estêve em São Januário, ontem à noite, assistindo ao seu clube, o São Cristóvão, enfrentar o América. Na tribuna de honra do estádio cruzmaltino, o repórter do Globo foi encontrá-lo, em companhia do presidente da FCF, Antônio do Passo, que rejeitou a proposta do parlamentar para solucionar o problema do preço dos ingressos do Maracanã. ‘Nós nos recusamos, terminantemente, a aceitar qualquer proposta que envolva as TVs e a liberação pela Assembleia Legislativa do preço dos ingressos. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Não existe a mínima relação entre elas, pois o televisamento dos jogos de futebol é problema diretamente afeto aos clubes’.”

Com a grafia e a estilística da época, o texto não é tão somente curioso como também serve de refletor aos nossos dias em que a televisão adquiriu uma importância crescente na estruturação do esporte brasileiro e mundial. É estultice dissociar as grandes competições nacionais e mundiais à participação das grandes emissoras de TV, que as transmitem a uma audiência de massa e, por essa transmissão, repassam grandes somas de dinheiro aos clubes e às suas entidades representativas.

Mas – e as luzes dos refletores começam a iluminar o cerne da questão – a preponderância da TV não elimina as outras mídias que cobrem esporte, sobretudo o rádio, o mais tradicional meio de transmissão eletrônica de esporte.

Voltemos ao início dos anos 60: naquele momento de transição, a Era do Rádio cedia espaço, paulatinamente, à Era da Imagem, moldurada pelo quadrado dos aparelhos de TV cujo consumo aumentava à medida que a estética radiofônica migrava para a frente das câmeras. Pois foi exatamente nessa época, em que as incipientes transmissões televisivas já prenunciavam enorme poder, que o rádio esportivo começou a construir sua Era de Ouro.

Velha dicotomia AM/FM

O rádio realiza transmissões esportivas desde a década de 30; ajudou, com isso, a popularizar o esporte de um país que se reinventava na política, na visão de artistas e intelectuais e na cultura – e que passou a ver no futebol, no samba e no carnaval um trinômio de identidade nacional. Sem os veículos de comunicação, e no futebol em específico o rádio, a reinvenção do Brasil seria invenção de poucas patentes.

A Era de Ouro do Rádio Esportivo perdurou até os anos 90, quando a novidade da televisão a cabo disseminou o noticiário esportivo extensivo por meio dos canais dedicados unicamente ao esporte e passou a dar ao público possibilidade de assistir a todos os jogos. Antes, saber notícias do clube e de uma competição era mais fácil no rádio, que abre horas diárias ao longo da programação, do que na TV – na qual em geral as informações eram condensadas no telejornal esportivo do início da tarde. Assim como a transmissão ao vivo na TV era restrita ao jogo de um dos grandes clubes do estado – mesmo assim jogos importantes, como finais de campeonatos, não eram televisionados para a cidade onde eram realizados.

A preferência do público pela televisão para acompanhar noticiário e transmissão esportiva é apontada por uma pesquisa recente do Ibope, intitulada “Esporte Clube Ibope Média”, que analisou, em amostragens que representam 50 milhões de pessoas em doze regiões metropolitanas do país, a interação do brasileiro com a comunicação esportiva.

Setenta e dois por cento optam pela televisão para obter informações sobre esporte. O rádio vem em segundo lugar, com 21%, o que representa mais de onze milhões de ouvintes – um número mais do que considerável. Um detalhe interessante, e sintomático dos novos tempos do rádio esportivo, é que o rádio FM é preferido por 12%, ao passo que o AM é ouvido por 9%. Se se considerar que por décadas as transmissões esportivas eram monopolizadas pelas emissoras de amplitude média, enquanto cabia às de frequência modulada tocar música, os dados da pesquisa mostram como essa velha dicotomia AM/FM está a cair por terra.

Em São Paulo, um dos maiores mercados de rádio da América Latina, com grande concorrência, as duas emissoras que pela aferição da audiência trimestral pelo Ibope, lideram tanto as jornadas pré e pós jogo quanto as transmissões (“bola rolando”) são FMs de programação jovem e popular: 105FM, em primeiro, secundada pela Transamérica FM. Estão à frente, com ampla vantagem, das tradicionalíssimas Globo, Jovem Pan e Bandeirantes, que há décadas dedicam-se ao esporte. A equipe esportiva da 105FM é recente: foi criada há sete anos.

A qualidade sonora da banda do FM e, sobretudo, a convergência com os produtos portáveis de tecnologia de ponta, fez as duas principais emissoras de AM do Rio de Janeiro – Tupi e Globo – reproduzirem sua programação em FM – duplicidade que já era realizada por emissoras tradicionais de São Paulo e Porto Alegre. No Rio, no entanto, experiências com transmissão somente em FM – como as feitas pela extinta Rádio Tropical entre os anos 1980e 90 – não deram certo, não abriram mercado.

Novidade vem do rádio

Cercada de expectativa, a Rádio Bradesco Esportes FM surge com o desafio não só de fazer a migração de ouvintes das emissoras tradicionais – mas também de sustentar as 24 horas do dia com conteúdo esportivo. Sabendo-se que o Bradesco é patrocinador de atletas de várias modalidades, não foi surpresa a declaração do vice-presidente de marketing do banco, Jorge Nasser, de que a emissora terá foco nas modalidades olímpicas.

Na televisão, sabe-se como a grade é feita: transmissão de todo tipo de modalidade esportiva, muitas reprises, mesas-redondas, noticiário. O apelo da imagem é forte – e sustenta veiculação de imagens de natação, ginástica, esgrima, golfe, tênis e outros esportes que despertam pouca atenção rotineiramente. Mas a falta dela é que dá às transmissões pelo rádio uma linguagem épico-dramática que a televisão inigualável pela televisão. Não são todos os esportes que a tradição consagrou como “radiofônicos”: além do futebol, vôlei, basquete e automobilismo. Os outros, quando para eles havia espaço, consolavam-se com pequenas inserções na programação. Terá a nova emissora a função de mostrar que nas ondas do rádio podem surfar todos os esportes? Quais modalidades serão narradas ao vivo? Será um novo tempo no rádio esportivo?

Há novidade no mundo da comunicação eletrônica. E não vem da televisão. Vem do velho e camaleônico rádio.

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[Bruno Filippo é jornalista, sociólogo e professor da Universidade Estácio de Sá e das Faculdades Integradas Hélio Alonso]

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