Luiz Santoro relembra boas histórias da TV Manchete

O seu Adolfo dizia que eu tinha a cara da Manchete
Gabriel Gontijo em 1 de setembro de 2015 - 13:42 em Áudios, TV
  
  
Luiz Santoro, TV Manchete

Luiz Santoro (Foto: Michel Menaei/Hipermídia Comunicação)

E para encerrar a série de reportagens com alguns ex-funcionários da TV Manchete, o Rádio de Verdade bate um papo com Luiz Santoro, que foi o âncora do Jornal da Manchete 2ª Edição. Santoro relembra da felicidade de trabalhar na emissora e nos conta um pouco mais da personalidade do “Seu Adolfo”.

Abaixo do texto você ode ouvir a entrevista.

Rádio de Verdade: Santoro, como é que é remexer nesse baú e encontrar coisas tão especiais?
Luiz Santoro: Olha, é maravilhoso, porque você reencontra pessoas que você não via há 30 anos. Então é muito bom você estar junto com essas pessoas. E tem uma coisa fantástica nisso: a Manchete acabou em 99; e a gente continua amando a Manchete e festejando a Manchete. Isso é que é legal, isso é que é o barato nessa história todo, é isso, porque realmente é muito legal reunir centenas de pessoas, sabe, com uma empresa que não existe mais. É muito legal, porque as pessoas eram muito felizes lá. E esse é o ponto principal. Seu Adolfo deve estar lá em cima sorrindo e, sabe, e agradecendo essa hstória toda que tá acontecendo aqui hoje, que já aconteceu em 2011 também.

Rádio de Verdade: Você falou do seu Adolfo. Ele é unanimidade entre os funcionários na sua simpatia, na sua humildade, principalmente na sua singularidade no trato com quem era não só da TV Manchete, mas também trabalhava no Grupo Bloch, de uma forma geral. Conta uma história curiosa, que uma vez ele disse que você era a caa da Manchete, mas não sabia o teu nome. Como é que foi isso?
Luiz Santoro: Isso era muito gozado, porque ele, de vez em quando ele ia à noite e eu fazia o Jornal da Manchete 2ª edição. Eu era o âncora do 2ª edição. Então, às vezes seu Adolfo passava lá, aí ele me via junto com o Roberto Maia. Roberto Maia já tinha cabelo branco naquela época. Então ele me abraçava e dizia: “Ôh, eu gosto muito de você. Você é a cara da Manchete. Mas qual é o jornal mesmo que você faz?”. Ele não lembrava. Aí ele virava pro Maia e dizia assim: “Vocês só tá aqui porque é da Globo”. Então esse era o seu Adolfo. Ele era um brincalhão. Ele era uma pessoa que era muito legal com os seus funcionários.

Rádio de Verdade: E nessa festa, que acontece aqui no bairro do Catete, vizinho à Rua do Russel, no bairro da Glória, imaginar que você está perto de um local que te marcou tanto, mas infelizmente não existe mais, com que intensidade isso te mexe?
Luiz Santoro: Ah, emociona a gente. Principalmente quando eu via ali seu Adolfo no vídeo de apresentação da TV Manchete, apresentando a TV Manchete, aquilo é muito, muito marcante. Aquela vinheta de encerramento da Manchete, quando a Manchete desligava os transmissores, de madrugada, aquilo mexe muito com a gente, porque lembra muito esse tempo que a gente era muito feliz. E sabíamos. Isso é que era o legal. A gente era feliz. E sabíamos. Isso é que tinha a grande vantagem nisso tudo. É por sso que a gente consegue reunir centenas de pessoas, que nem hoje aqui.

Rádio de Verdade: No momento em que, de certa forma, está se rediscutindo a linguagem no jornalismo, criando um jornalismo mais informal, e etc, a Manchete já fazia isso, muitas vezes, nos anos 80. Por que é que muita gente ainda acha que a Globo está se reinventando, e tal, e não se lembra da Manchete, que já começou com essa linguagem há 30 anos?
Luiz Santoro: Gabriel, veja bem, você deve ter vivido um pouco a Manchete com Jaspion, Cavaleiros do Zodíaco, a tua geração e a geração anterior lembram muito da Manchete por causa disso: os desenhos animados. Mas o jornalismo da Manchete, ele era antes de mais nada, inovador. E no jornalismo da Manchete, nós deixávamos a pessoa falar. E hoje é tudo correndo, então tudo cortado. Então, naquela época, o sujeito podia até ver o jornal na Globo, mas ele ia ver no Jornal da Manchete, pra ver se era verdade tudo aquilo que ele tinha falado. Porque tinha uma continuidade, entendeu? Isso marcou muito a Manchete. O jornalismo da Manchete sempre foi muito respeitado. Você vê que eu fazia o jornal 2ª edição e eu era reconhecido em tudo que era lugar que eu fosse. Por que? Porque dava audiência. Várias vezes nós batemos a audiência da Globo no mesmo jornal. Por que? Porque a Manchete tinha credibilidade. Nós não tínhamos aquela coisa de não poder falar sobre. Nós falávamos sobre tudo.

Rádio de Verdade: Eu posso estar falando besteira, mas se eu não tiver enganado, você era professor de química. Você imaginava que a Manchete iria revirar não só tua vida profissional, mas de uma certa forma, pra não dizer de uma forma completa, sua vida pessoal também?
Luiz Santoro: Veja bem, não foi a Manchete que revirou a minha vida. Foi a Bandeirantes, em Brasília. Eu fui apresentar um vestibular, me convidaram pra ser apresentador, e eu fui. Eu tava querendo mudar de vida, eu tava querendo passar pra uma coisa diferente, e tal, e acabou que eu entrei nisso. Quando eu vim pro Rio de Janeiro, eu fui chamado a fazer o teste na Manchete. E todos que entraram no início da Manchete, fizeram teste. Todos. Todos. E aí eu fui o segundo a ser aprovado. O primero foi o Bianchini e depois fui eu. E aí a Manchete mudou a minha vida, no sentido de que a Manchete era muito mais vista do que a Bandeirantes. Eu fiz o Jornal da Band com o Joelmir Beting, Milton Carlos, Carlos Castelo Branco. Só time pesado. Mas de qualquer maneira, a Manchete me deu a coisa da credibilidade no jornalismo, pelo fato de que a Manchete tinha um jornalismo muito crível, muito, sabe, verdadeiro.

Rádio de Verdade: Agora falando um pouco sério, no que diz respeito pós Manchete, até hoje está nos tribunais a questão de uma ação dos ex-funcionários de uma emissora de televisão, que em respeito a você, eu não vou falar o nome, que você não gosta de ouvir o nome dessa emissora de telvisão, como é que tá toda essa situação? Alguém já conseguiu receber os atrasados? Estava no STJ?
Luiz Santoro: Algumas pessoas receberam, mas a grande maioria não recebeu nada. Absolutamente nada. Nós fizemos, inclusive, a festa de 2011, com esse motivo. Pra mandar pra presidente o pedido, porque realmente a gente fica triste de ver, sabe, pessoas que trabalharam a vida inteira, jogaram 15 anos ali dentro e não ter nada. Teve gente, que só pra você ter uma ideia, Gabriel, que já morreu. E não recebeu nada. E não é uma nem duas, são dezenas que já morreram e não receberam nada. E aí essa TV que assumiu, que disse que ia pagar, não pagou. Então eles são o quê? Trambiqueiros.

Rádio de Verdade: Pra fechar, Santoro, pra dar aquele gostinho especial pro nosso internauta, encerra aqui a entrevista como você encerrava o Jornal da Manchete.
Luiz Santoro: O Jornal da Manchete 2ª Edição volta amanhã. Fique com a gente!

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